Sogno Ad Occhi Aperti
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Clarice Lispector

Aquilo que ainda vai ser depois – é agora.
Agora é o domínio de agora.
E enquanto dura a improvisação eu nasço.
E eis que depois de uma tarde de “quem sou eu”
e de acordar à uma hora da madrugada
ainda em desespero
- eis que às três horas da madrugada acordei
e encontrei-me.
Fui ao encontro de mim.
Calma, alegre, plenitude sem fulminação.
Simplesmente eu sou eu.
E você é você.
É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um ”isto”.
Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama.
Não: tu olhas para ti e te amas.
É o que está certo.
O que te escrevo continua
e estou enfeitiçada.”
-Trecho do livro Água Viva-
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
A Reunião Das Vogais
Para uma das mais sérias discussões.
Disse o ‘A’ - “eu, definitivamente,
Vou provar - e que provem o contrário -
Que sou a mais bonita e a mais pungente
Das letras todas deste abecedário!
" Nervoso, disse o ‘E’ – “É o inverso!!
Pois notes que sequer tu és presente
E que mesmo sem ti, corre eloqüente
Os intentos contidos neste verso!"
Cabisbaixo, pois, o ‘A’ calou em dor.
Mas o ‘E’, explorando esses revezes,
Reforçou: - “eu, na estrofe anterior,
Apareço exatas vinte e cinco vezes!"
Mas o ‘I’ logo gritou: – “Amigo caro!
Hora após hora aguardando, pois, vivi
Para logo aqui vir mostrar quão raro
São as linhas a não incluir o “I”."
"Veja acima: doze vezes apareço!
Portanto não há dúvida alguma:
O respeito de todos eu mereço,
Porque lá não apareces vez nenhuma!"
Logo ‘O’ acrescentou: – “Mas que empofe!
Pois não notas que sequer estás presente
E que tua falta nenhum de nós a sente
Nos versos tão sonoros desta estrofe?"
"Quinze vezes sou presente aí em cima!
Confira, conte bem, fique à vontade.
Além disso, eu enfeito qualquer rima.
Porque sou o tom da sonoridade."
Mas o ‘U’ interferiu: - “Minhas amigas,
Vou lançar um desafio neste instante
Que, espero, finalize essas brigas,
Por saber qual de nós é importante. "
Vejam como a ausência reunida
De nós todas transforma em bobagem
Mesmo que seja uma lição de vida,
Alterando a essência da mensagem:"
“ V d d f r lm m nst nt s.
m m l q mor n lm d c r nt .
J nt s, t d s s m s mp rt nt s,
P s f rm m s d st v d c rr nt !”
Assim, vamos nos livrar deste estigma
E deixar de nos causar mútuo mal.
Eis aí a solução do meu enigma,
Que é também uma verdade universal:
“A vaidade fere a alma em instantes.
É um mal que mora na alma do carente.
Juntos, todos somos importantes,
Pois formamos desta vida a corrente!”
J.B.Xavier
Vídeo: A revolta da vogal i
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Análise do Discurso- Pêcheux
Fazendo referência a Nietzsche, ele diz que “todo fato já é uma interpretação”, demonstrando que não temos a perspectiva de essência de um contato com o objeto ou com o outro sem mediação, seja ela qual for. Assim, a linguagem não pode ser compreendida como um sistema significativo fechado, sem relação com o exterior, devendo ser compreendida a partir do contexto histórico-ideológico dos sujeitos que a produzem e que a interpretam. Pêcheux diz, ainda, que é necessário “suspender a posição do espectador universal como fonte da homogeneidade e interrogar o sujeito paradigmático, no sentido kantiano e também no sentido contemporâneo do termo” (Pêcheux, 1983, p.32). Dessa forma, ele não só rejeita a noção kantiana de sujeito consciente que controla os sentidos que produz, como também relativiza a concepção de sujeito inconsciente, que é disperso, descentrado, como é atualmente entendido em Análise do Discurso. Isto aponta para uma importante questão nessa área, pois, considerando que as relações entre inconsciente e ideologia não estão, hoje, bem delineadas, é preciso que se relativize as relações entre a Psicanálise e a AD, pois quando optamos por trazer conceitos de uma área para outra, precisamos ter em mente até que ponto isso não fere o que é a proposta da disciplina.
Em sua reflexão sobre o discurso como estrutura ou acontecimento, Pêcheux discute diferentes caminhos para a abordagem desta questão. Um primeiro, seria tomar um enunciado e trabalhar a partir dele. Um outro, consistiria, para o autor, em uma questão filosófica; por exemplo, a da relação entre Max e Aristóteles, a propósito da idéia de uma ciência da estrutura. E um terceiro caminho seria o da tradição francesa de Análise do Discurso, como por exemplo, “levantando, na configuração dos problemas teóricos e de procedimentos que se colocam hoje para essa disciplina, o da relação entre a análise como descrição e a análise como interpretação” (Pêcheux,1983, p.17). O autor opta, então, por trabalhar no entrecruzamento desses três caminhos: o do acontecimento, o da estrutura e o da tensão entre descrição e interpretação em Análise do Discurso.
O autor afirma que “todo enunciado é intrinsecamente suscetível de tornar-se outro, diferente de si mesmo, se deslocar discursivamente para derivar para um outro” (Pêcheux,1983, p.53), o que é significativo para a Análise do Discurso, pois o sentido não é compreendido como uma unidade fixa, já que é histórico e, por isso, pode deslizar-se para outro.
Fonte: http://www.unimontes.br/unimontescientifica/revistas/Anexos/artigos/revista_v6_n1/15_artigos_linguagem.htm

segunda-feira, 23 de novembro de 2009
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Dia da Consciência Negra
CONSCIÊNCIA NEGRA

Dos canaviais e senzalas,

quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Antoine de Saint-Exupéry
Rosas Brancas

Mikhail Bakhtin: o filósofo do diálogo

Mikhail Bakhtin dedicou a vida à definição de noções, conceitos e categorias de análise da linguagem com base em discursos cotidianos, artísticos, filosóficos, científicos e institucionais. Em sua trajetória, notável pelo volume de textos, ensaios e livros redigidos, esse filósofo russo não esteve sozinho. Foi um dos mais destacados pensadores de uma rede de profissionais preocupados com as formas de estudar linguagem, literatura e arte, que incluía o linguista Valentin Voloshinov (1895-1936) e o teórico literário Pavel Medvedev (1891-1938).
Segundo essa concepção, a língua só existe em função do uso que locutores (quem fala ou escreve) e interlocutores (quem lê ou escuta) fazem dela em situações (prosaicas ou formais) de comunicação. O ensinar, o aprender e o empregar a linguagem passam necessariamente pelo sujeito, o agente das relações sociais e o responsável pela composição e pelo estilo dos discursos. Esse sujeito se vale do conhecimento de enunciados anteriores para formular suas falas e redigir seus textos. Além disso, um enunciado sempre é modulado pelo falante para o contexto social, histórico, cultural e ideológico. "Caso contrário, ele não será compreendido", explica a linguista Beth Brait, estudiosa de Bakhtin e professora associada da Universidade de São Paulo (USP) e da Pontifícia Universidade Católica (PUC), ambas na capital paulista.
Nessa relação dialógica entre locutor e interlocutor no meio social, em que o verbal e o não-verbal influenciam de maneira determinante a construção dos enunciados, outro dado ganhou contornos de tese: a interação por meio da linguagem se dá num contexto em que todos participam em condição de igualdade. Aquele que enuncia seleciona palavras apropriadas para formular uma mensagem compreensível para seus destinatários. Por outro lado, o interlocutor interpreta e responde com postura ativa àquele enunciado, internamente (por meio de seus pensamentos) ou externamente (por meio de um novo enunciado oral ou escrito).
terça-feira, 17 de novembro de 2009
A subjetividade da negação
A subjetividade da negação
Negar, dizer não diante de uma situação ou objeto qualquer para o filósofo
Henri Bergson não é suficiente para considerar a inexistência. Abolir um
objeto ou situação em detrimento da negação é uma operação mental
eminentemente intelectual, o que se passa ao espírito é de outra natureza:
a negação seria uma afirmação entreposta. Então, qual seria o teor desta
afirmação? É sobre a afirmação entreposta que pretendo discutir
rapidamente aqui.
Vou dar um exemplo para ficar mais claro. Ao dizer, este computador é
veloz, minha percepção se volta ao atributo imediato do objeto, a
velocidade do computador, o que se apreende é o objeto, meu olhar tem esta
direção e exterioridade; ao passo que se negar, este computador não é
veloz, o que percepciono são as possibilidades que se abrem ao meu
espírito: o computador é lento, moderado ou outra graduação qualquer. Esta
outra afirmação ou afirmações entrepostas colocam em evidência o
julgamento e não o objeto. As afirmações entrepostas, portanto, são
indeterminadas. Bergson diz que a negação difere da afirmação, na medida
em que é uma afirmação de segundo grau: afirma qualquer coisa em relação a
uma afirmação que por sua vez afirma qualquer coisa em relação a um
objeto.
O que atribui a dimensão subjetiva à negação é, precisamente, o fato de
constatar uma ou várias substituições, e isto só existe como concepção do
espírito, enquanto possibilidades que percepciono. A negação para o
espírito tem um sentido profundo, pois ela mobiliza a memória, e,
sobretudo o desejo de se apoiar no passado que se recorda e um passado que
se imagina, e não havendo diferença entre eles, o espírito chega à
representação do possível em geral. A negação de uma coisa implica na
afirmação latente da sua substituição por outra coisa, a forma negativa da
negação se beneficia da afirmação que está no fundo dela, apoiando-se no
corpo da realidade positiva a que se liga.
Neste processo, a coisa ou qualidade substituída deixa atrás de si um
vazio ou um nada parcial. Este vazio deixado pela coisa substituída
constitui a idéia do nada. Assim, passamos a nossa vida a preencher
vazios, que a nossa inteligência concebe sob a influência do desejo e da
saudade, sob a pressão das necessidades vitais. O vazio pode ser entendido
por uma ausência de utilidade e não de coisas, andamos, pois,
constantemente do vazio para o pleno. É esta a direção da nossa ação.
Esta reflexão sobre Bergson leva-me a retomar uma reportagem de Bernardo
Carvalho sobre a artista inglesa Rachel Whiteread que saiu no jornal Folha
de São Paulo, dia 19 de agosto de 2003 sob o título: O espaço negativo. A
artista é famosa por sua grande idéia que foi justamente dar materialidade
e visibilidade ao espaço negativo, ao que existe entre as coisas, ao vazio
em torno delas.
Em 1993, a escultora encheu de concreto o interior de uma velha casa
operária condenada a demolição numa rua em Bow, na zona leste de Londres.
Quando as paredes caíram, surgiu no interior um bloco cinza compacto,
reproduzindo a forma da casa como um fantasma do que já não existia. O
projeto chamado House ficou em exposição por dois meses e meio e fez da
artista uma celebridade internacional da noite para o dia.
Em 2000, ela inaugurou um outro bloco de concreto, de aspecto monolítico,
num espaço público: o monumento às vítimas do Holocausto, na Judenplatz,
em Viena. O monumento é o molde negativo do avesso de uma biblioteca, como
se as paredes tivessem sido arrancadas de uma sala coberta de estantes,
deixando à vista o fundo das estantes e a parte oposta das lombadas dos
livros, as prateleiras e as bordas das páginas dos livros fechados e
petrificados.
A artista esculpe a falta e o vazio, materializando o espaço entre as
coisas. Rachel Whiteread põe em questão, na sua arte, a própria
possibilidade da representação. Em nosso cotidiano somos incapazes de ver
o avesso das coisas, o espaço negativo, a forma do vazio.
Bergson, no século passado, já formulava os fundamentos de uma
subjetividade negativa, da constituição do nada, do que seria o vazio.
Aprofundou o sentido do nada numa filosofia onde o espírito ganha uma
amplitude maior que o próprio corpo. O nada é uma imagem cheia de coisas,
encerra ao mesmo tempo o sujeito e o objeto. Concluo dizendo que o nada é
um ponto da subjetividade, um ponto onde se realiza a comunicação, onde os
sentidos se materializam, portanto, é pedagógica e social.
Débora Martins de Souza- Doutora em comunicações . universidade de são paulo, USP, Brasil.
Fonte: http://www.eca.usp.br/nucleos/filocom/existocom/artigo3b.html
quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Alberto Caiero
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Sereia

SEREIA
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
VERDADE- Carlos Drummond de Andrade
A porta da verdade estava aberta,
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Alberto Caieiro

O Meu Olhar
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de, vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender ...
O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...
Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso,
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar ...
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência não pensar...